4.11.09

Navegantes silenciosos

Um certo cantor baiano ajudou a popularizar entre nós a seguinte frase: "navegar é preciso, viver não é preciso". Antes dele, o poeta português Fernando Pessoa imprimiria a frase em seu poema "Navegar é preciso", de 1914. Até aí tudo bem, pois imagino que muitos já tenham ouvido a música e tomado conhecimento da poesia. O que poucos sabem, imagino eu, é que a frase é bem mais antiga.

Cerca de 70 a.C., Pompeu, general romano, foi enviado à Sicília com o objetivo de escoltar uma frota para Roma via mar. Antes da saída alguém previu uma tempestade, os marinheiros amedrontados se recusavam a seguir viagem quando o general disse aos seus homens: "Navigare necesse, vivere non est necesse".

Fiquei pensando na atualidade da frase. Mesmo tanto tempo depois, a asserção de Pompeu parece atualíssima, até mesmo em tempos de internet. Explico: dia desses instalei no blog um desses contadores de visitas que localizam numa espécie de globo de onde vêm os acessos. Daí que fiquei visualizando alguns poucos desses pontinhos que brilhavam no globo vindo de lugares diferentes. Por um tempo fiquei pensando nesses navegantes silenciosos que, ao contrário dos navegantes de Pompeu, se lançam a cruzar o cyberespaço a procura de algo. Fiquei pensando quem seriam estes aventureiros e por quais caminhos chegaram até aqui. Tentei imaginar o que pensavam ao aportar e lançar âncora aqui, mesmo que por alguns minutos. Se voltariam outras vezes ou não...

Por fim pensei: Pompeu estava certo! Navegar é preciso, pois posso precisar de onde vêm os navegantes. Mas viver não é preciso, não posso precisar a vida, os hábitos, a morte, enfim, a subjetividade desses navegantes silenciosos.

13.10.09

Remoto

A sua imagem ficou na minha cabeça
como o cheiro de seus cabelos
ficou no meu nariz.
Até hoje te assisto e já não sei mais
aonde está o controle que te desliga,
deve está em algum lugar remoto.

9.10.09

Qual o tamanho de seu desejo?




– Qual o tamanho de seu desejo?
– Hein?
– Disse: qual o tamanho de seu desejo?
– Sei lá. E desejo tem tamanho?
– Eu te faço uma pergunta e você me responde com outra, porra?!
– Ah, faz uma mais fácil aí carai.
– A pergunta é essa mesmo. Qual o tamanho de seu desejo?
– Sei lá.
– Mas isso você já respondeu.
– Deixa eu ver... Meu desejo, no momento, não é muito grande não.
– Sim...
– É mais ou menos do tamanho de um carro.
– Zero quilômetro?
– Claro, pô. Você acha que eu quero carro velho?
– Então aí tá complicado.
– Complicado por quê?
– Por que um carro zero é muito caro e você, no momento, é um liso.
– Também não precisa ofender, né?
– Ah, tô só batendo a real.
– Então tá. Agora é você, me responde aí: qual o tamanho de seu desejo?
– Meu desejo é do tamanho de uma bicicleta.
– Bicicleta?
– É, bicicleta. Num pode não?
– Depois o liso sou eu.
– Pelo menos uma bicicleta é mais acessível que um carro.
– Mas com uma bicicleta não dá nem pra ganhar aquela gatinha que vai passando ali.
– Então seu desejo é bem maior do que um carro, meu caro amigo.
– E o seu não passa de uma bicicleta, seu mané.
– É verdade, você tem razão. Mas agora eu vou ter que ir.
– Já? Mas tão cedo? Aonde você vai?
– Vou realizar meu desejo.
– Como assim?
– Vou comprar minha bicicleta, ora!
– Comprar uma bicicleta?
– É, comprar uma bicicleta! O meu desejo, no momento, é do tamanho de uma bicicleta, lembra?
– É verdade... que filho da puta!
– E você, quando é que você vai realizar seu desejo? Se você quiser depois te dou uma carona no bagageiro de minha bike. Quem sabe assim você não chega mais rápido... ... Seu mane!

29.9.09

E apesar de tudo a vida
continua.
As janelas das casas
estavam abertas com
suas toalhas e roupas
estendidas.
Namorados nas ruas passeando.
A velhinha que foi
fazer compra.
E os meninos que
brincam na praça.

Na brevidade de nossa experiência
não há espaço suficiente
para as mais
diversas possibilidades...

Diante de tanta beleza
a única coisa que pude
fazer foi comtemplar.
E passou por
mim assim...
Então pensei com meus botões:
Deus não seria tão generoso
comigo.

21.8.09

Raul Seixas: uma ausência muito presente

Agosto de 1989. 21 de agosto de 1989, pra ser mais preciso. Foi esta a data que morreu Raul Seixas. Uma data muito simbólica e um artista que vigora em ato.
No imaginário popular o mês de agosto é o mês dos desastres, dos acontecimentos ruins. Quantas personalidades não já morreram neste mês, não é mesmo? Mas você lembra de alguma que morreu no mês de março, por exemplo? Certamente muitas. Todo mês morre gente. Mas, de acordo com o senso comum, o mês de agosto é que é o problema: mês do agouro, mês do desgosto e por aí vai.

O ano de 1989 também nos remete a algumas reflexões. Neste mesmo ano, Raul não viajaria sozinho para o desconhecido: o cantor Luiz Gonzaga, o ator Lauro Corona e o pintor e escultor Salvador Dali também iriam com ele. Ainda em 89, ruía o muro de Berlim levando junto uma parte do sonho socialista. Aqui no Brasil, acontecia a primeira eleição direta para presidência da República depois de 29 anos de “sinal fechado” e poucos meses faltava até a virada para a próxima década: os anos 90.

Na música anos 80, Raul Seixas cantava o seguinte: “Hey! Anos 80!. Charrete que perdeu o condutor. Hey! Anos 80! Melancolia e promessas de amor.”. Tentar imaginar o que Raul diria dos anos 90 e dos anos 2000 seria um interessante exercício e daria um bom artigo sobre o talvez. Mas este não é o nosso propósito. Afinal, a década de 90 foi a década do Grunge e do Mangue Beat. Todos dois “movimentos” de releituras. O primeiro, do Rock pesado dos anos 70 das guitarras do Black Sabbath, só que com vinte anos à frente, uma sonoridade mais barulhenta e temas do universo teenager. Já o segundo, com 20 anos a frente, desta vez do Tropicalismo e uma idéia que se aproximava dos planos de Gil e Caetano: mesclar a cultura pop estrangeira com manifestações tradicionais brasileira, misturar o brega com o chic etc. e assim criar uma nova estética que surja dos elementos que já existe, como uma dialética. E o que é que Raul tem a ver com isso? Raul misturou Baião com Rock and Roll.

As vanguardas quase sempre apresentam seu manifesto expondo seus objetivos e a linha de sua atuação conforme sua leitura de mundo ou filosofia. Esta afronta tem como finalidade rever os antigos valores e abrir brechas para um novo olhar sobre a vida. Já a “[...] arte não se contenta em estar presente, pois ela significa também uma maneira de representar o mundo, de figurar um universo simbólico ligado à nossa sensibilidade, à nossa intuição, ao nosso imaginário, aos nossos fantasmas”1.

Assim sendo, Raul Seixas foi vanguarda e fez de sua arte um meio através do qual ele poderia materializar suas representações e leituras de mundo:
“[..] a solução é alugar o Brasil”2; “[...] a civilização se tornou tão complicada, que ficou tão frágil como o computador, que se uma criança descobrir o calcanhar de Aquiles com um só palito para o motor [...]”3; “O sol da noite agora está nascendo. Alguma coisa está acontecendo, não dá no rádio nem está nas bancas de jornais [...]”4; “[...] minha mãe me disse há um tempo atrás, onde você for Deus vai atrás. Deus vê sempre tudo que cê faz, mas eu não via Deus, achava assombração [...]”5.

É por estas e outras que a obra de Raul é atemporal. E se um dia o computador de fato parar, além de outras coisas, vão chamá-lo de profeta. Me parece até que já o chamaram disso também, né mesmo?


Referências


1. JIMENEZ, Marc. O que é estética. São Leopoldo, RS: ED. UNISINOS, 1999. p. 10.
2. Aluga-se.
3. As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor.
4. Novo Aeon.
5. Paranóia

31.7.09

Lembranças da última noite

Aquele cabelo seu
que ficou em minha boca
guardo-o agora comigo
debaixo do meu traveseiro.
Tão seu, só meu.

30.7.09

Enquanto isso...

Com uma caneta e um papel na mão começou a rabiscar umas contas que teria que pagar no mês. De olho na parada de ônibus para não perder a hora, se dividia entre esses dois afazeres: esperar o ônibus e conferir as contas do mês no papel.
Enquanto isso, se distraia ouvindo Serge Gainsbourg cantando My Lady Heroïne no seu fone de ouvido.
Nem o ônibus passou e nem ele pagou suas contas. Resolveu então comprar uma bicicleta. Assim, prolongou um problema e resolveu outro. Por fim, continuou escutando o Gainsbourg nos seus passeios ciclísticos pela cidade.